Eu estava a caminho do trabalho, no jornal O Estado do Paraná, quando o Donatti, então chefe de redação da Folha de Londrina, me ligou fazendo uma proposta. Não pensei duas vezes. A Folha era, sem dúvida, o melhor jornal para se trabalhar na época. Eu tinha meus vinte e poucos anos e fui trabalhar no sonho de consumo dos jornalistas. Um jornal sério, "independente". No primeiro dia, assinei a manchete. Nem lembro o que era, só lembro do peso que foi. Nos anos seguintes, passei madrugadas em rebeliões, fiz viagens malucas e pautas das mais bacanas, mesmo antes de assumir o Folha 2, o caderno de cultura da Folha. Uma que nunca vou esquecer foi a pauta do aniversário de Curitiba, quando a chefia dividiu a equipe para cobrir 24 horas na cidade. Eu e o Kraw Penas, sem dúvida um dos melhores fotógrafos da cidade, fomos destacados para cobrir a madrugada. O que aconteceu rende um post a parte (fica a promessa). Já no Folha 2 aprendi a gostar de política cultural e ir além das materinhas de espetáculos e afins. A Folha foi mudando, perdendo espaço como aconteceu com quase todos os veículos impressos nos últimos anos, mas mesmo assim tinha uma redação incrível. Mesmo com toda a leva de demissões de tempos em tempos (as quais milagrosamente sobrevivi) mantinha um foco e uma postura profissional. Com o tempo, muita coisa mudou. No jornal e em mim. Há uns anos assumi a coluna que nem era exatamente a minha cara, mas a liberdade no trabalho não tinha preço. Enfim, dez anos se passaram sem que nem uma vez eu reclamasse a caminho do trabalho. Ir para Folha sempre foi um prazer, mesmo nas épocas mais difíceis. Por isso, ontem, sofri um pouquinho pela primeira vez. Ontem, pedi demissão.